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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Assim não, pessoal

Antonio Prata

Em 1998, na primeira semana do meu curso de ciências sociais, na PUC, fizemos um abaixo-assinado. Estávamos em fevereiro, a classe era abafada e pedimos para que a reitoria instalasse um ventilador. Redigimos um texto à mão, coisa de três linhas, e, durante o intervalo, uma colega foi até o Centro Acadêmico digitar e imprimir nossa justa e simples reivindicação. Mal chegou ao CA, um aluno ofereceu-se para ajudar.
Minha amiga voltou uma hora depois, com os olhos arregalados. As três linhas tinham virado um manifesto de duas páginas, que falava do "sucateamento" da educação no Brasil, dos salários dos professores nas escolas públicas, citava Maio de 68 e terminava exigindo: "a) a divisão da turma em dois; b) a mudança para uma classe maior; ou c) ventiladores".
Sem entrar no mérito do longo manifesto, perguntei que história era aquela de dividir a turma em dois -o que implicaria dobrar o número de professores e custaria mais de R$ 100 mil-, se nós só pedíamos um ventilador? Ela disse que tentara explicar tal raciocínio ao membro do CA, mas ouviu em resposta que era "preciso dar uma alternativa à reitoria, para começarem a discutir". Alguém sugeriu, então, que pedíssemos: a) um ventilador ou b) um frigobar com Boêmias e Chicabons. Se a reitoria preferisse a segunda opção, não nos oporíamos.
A história seria cômica, não fosse por um detalhe: a educação pública no Brasil era -e é- uma lástima, os salários dos professores eram -e são- uma vergonha. Ao cobrar do reitor de uma universidade privada melhorias no ensino público, contudo -e no abaixo-assinado por um ventilador-, o guerrilheiro do CA não fazia nada pela educação no país, só tornava ridículo, aos olhos dos demais alunos, todos os que levantassem as bandeiras legítimas de um ensino de qualidade -além, é claro, de afastar definitivamente a possibilidade de conseguirmos o ventilador.
A invasão da reitoria da USP me fez lembrar daquele episódio. Que a polícia prenda jovens por consumo de maconha é lamentável. Que jogue gás lacrimogêneo contra os estudantes que protestam contra a prisão é uma violência desmedida. Mas que, em reação a isso, alunos invadam o prédio da reitoria e peçam a proibição da PM no campus é um raciocínio tão equivocado quanto sugerir a divisão da turma em dois, por causa do calor. Ou luta-se para que ninguém seja preso por porte de maconha e que ninguém tome porrada da PM -e acampa-se em frente do Palácio dos Bandeirantes, não na reitoria- ou o que se está exigindo é um privilégio. Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos no campus da universidade, não é um pensamento libertário, é um vício classista: a velha ideia de que, neste país, todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.
Com esta invasão, os guerrilheiros da reitoria não fizeram mal apenas à discussão sobre drogas e violência policial: ajudaram a tornar ridículos, aos olhos de toda a população, os milhares de outros jovens que, no Brasil e fora dele, lutaram e lutam por causas urgentes e fundamentais; não para serem tratados como cafés com leite.

antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata
Blog 'Crônicas e Outras Milongas' antonioprata.folha.blog.uol.com.br
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 09/11/2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Polícia e autonomia na USP

Fernando de Barros e Silva

"Não é um caso como esse que vai nos dar um argumento bom para colocar a PM dentro da USP." Ouço a frase um pouco estupefato. Quem fala à videorreportagem da Folha.com é uma respeitável professora da Faculdade de Economia e Administração da USP. Ela se refere ao assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva, quarta à noite, no estacionamento da FEA, morto com um tiro na cabeça.
Não é mesmo o caso de espetacularizar a tragédia. Nem de minimizá-la. O que mais seria necessário para escancarar que a USP se tornou um lugar inseguro? Ou antes: existe algum bom argumento para que a PM não esteja dentro da USP? Não consigo pensar em nenhum.
Até quando a universidade ficará refém da mentalidade que herdou do regime militar, quando, de fato, a polícia entrava no campus para reprimir e prender arbitrariamente estudantes e professores?
Passaram-se 40 anos. Quem, de fato, acredita que a presença da PM possa significar ameaça à liberdade de manifestação na USP? Ela vai, isso sim, como parece óbvio, aumentar a proteção das pessoas que lá estudam e trabalham, ainda que não seja a única medida a ser tomada, como também vem sendo debatido.
Estamos falando de uma área correspondente a 440 campos de futebol, com vários espaços ermos e muitos pontos de acesso, por onde circulam diariamente até 100 mil pessoas, sendo 80 mil entre docentes, funcionários e alunos.
Ninguém aqui defende a "militarização" do campus. Isso é tolice. O problema talvez seja o inverso. A ideia de que a USP seja um "território livre", uma comunidade imune às regras do mundo externo, é uma distorção abusiva da autonomia universitária conquistada nos anos 80, reforçada ainda pela visão idílica e idealizada do campus, resquício de um pensamento de esquerda afinal muito pouco republicano.
Dizer, hoje, "aqui a polícia não entra" não passa de um cacoete autoritário de quem, já sendo autônomo, gostaria de ser soberano.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 21/05/2011.