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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Fracasso irredutível

Hélio Schwartsman


Já que Delfim Netto levantou o problema das previsões erradas dos economistas, acho que podemos tratar deste segredinho sujo que afeta em maior ou menor grau todas as ciências sociais.

Quem demonstrou cabalmente a precariedade dos prognósticos de economistas e cientistas políticos foi Philip Tetlock. Ele coletou, ao longo de 20 anos, 28 mil previsões feitas por 284 experts. A conclusão do estudo, publicado em 2005, é que eles se saíram ligeiramente melhores que o acaso. Um macaco lançando uma moeda obteria resultados parecidos.

Como é possível que tanta gente inteligente e estudiosa, que dedicou a vida a um ramo do saber, não consiga superar o macaco? A explicação é de ordem física. Nós nos habituamos a ver a ciência prevendo com enorme precisão fenômenos como eclipses e marés. Só que estes são sistemas não complexos. Aqui, para efeitos práticos, o todo não difere da soma das partes, o que permite montar equações relativamente simples que resultam em predições acuradas. Embora um bom número de fenômenos naturais siga esse padrão, há muitos que não o fazem.

Em sistemas complexos, que incluem quase todas as atividades humanas, o todo é mais que a soma das partes. É como um avião: nenhuma das peças que o compõem é capaz de voar, mas o conjunto, sim.

Prognósticos sobre sistemas complexos, quando possíveis, ficam à mercê de pequenas perturbações que podem alterar de forma dramática os resultados, em especial se o prazo é dilatado. É o efeito borboleta.

Isso significa que devemos desistir dos modelos econométricos? Calma lá. Apesar de suas limitações, eles nos ajudam a entender melhor os fenômenos e, ao menos em teoria, podem ser aperfeiçoados. O que podemos fazer é tentar recalibrar nossas mentes, para interpretar os vaticínios menos como um oráculo e mais como o resultado de um exercício intelectual irredutivelmente falho.


helio@uol.com.br
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 24/12/2011.

De Oxford para a USP

Claudia Antunes

Um ótimo contraponto aos que comemoram a punição exemplar aplicada aos invasores da USP e defendem o enquadramento dos rebeldes sem causa do campus é o artigo "Universidades sob ataque", do historiador britânico Keith Thomas, recém-publicado na "London Review of Books".

O texto vem a calhar porque, por condenáveis que tenham sido os métodos usados na ocupação da Coordenadoria de Assistência Social da USP, no ano passado, o episódio virou desculpa para ataques generalizados à liberdade e à autonomia acadêmicas. Os cursos não técnicos, em especial, são caricaturados como redutos de radicais e preguiçosos.

Esse conservadorismo não é original. Thomas, professor e ex-dirigente de Oxford, descreve ofensiva semelhante em seu país, onde um programa oficial tenta alinhar as universidades às necessidades imediatas do mercado e trata alunos como consumidores de saber empacotado.

É bom registrar que o historiador não é contrário à ciência aplicada nem a que se exija mérito de professores e estudantes. Mas a ênfase na aferição quantitativa, aponta, tem resultado em calhamaços de trabalhos desnecessários ou concluídos de forma prematura.

Lá como cá, um argumento recorrente é que a universidade pública deve mostrar resultados rápidos para prestar contas aos contribuintes que a sustentam. Despreza-se, diz Thomas, a ideia de que o ensino superior tem um "valor não monetário", dando espaço ao "pensamento especulativo" essencial à democracia -e que, afinal, fez o prestígio histórico da academia britânica.

Não se contesta que a universidade brasileira, como outras instituições nacionais, precisa ser aprimorada. Ruim é a inspiração em modelos de reforma como a do Reino Unido atual, com sua juventude desencantada e sua economia quase reduzida às instituições financeiras da City.
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 22/12/2011.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ideias que moveram seu tempo


Guilhermo O'Donnell


Luiz Carlos Bresser-Pereira

Guillermo O"Donnell poderia ter sido um grande político, mas preferiu se dedicar às ideias, por crer que elas são poderosas e movem o mundo

Acabo de receber a notícia da morte de Guillermo O"Donnell aos 75 anos. Perco um amigo da minha geração, e todos perdemos o mais importante pesquisador e teórico da democracia da América Latina.

Conheço Guillermo desde os anos 1970, quando lutávamos pela democracia nos nossos países. Mas o primeiro grande trabalho seu que li foi sobre as alianças de classe na Argentina: o pacto desenvolvimentista associando empresários industriais, burocracia pública e trabalhadores contra o pacto liberal unindo a grande agricultura e pecuária exportadora ("el campo"), o grande capital e interesses estrangeiros.

Fazia, então, a análise e a crítica desse pacto colonialista que Getulio Vargas venceu no Brasil, mas que os argentinos jamais lograram derrotar. Ainda nos anos 1970, como pesquisador do Cedes, Guillermo desenvolveu a ideia do "Estado burocrático-autoritário" - um conceito que se tornou paradigmático na América Latina.

Ele explicou a lógica dos regimes militares como uma consequência do "aprofundamento do capital" que estava ocorrendo na região depois que a substituição de importações de bens manufaturados de consumo se esgotara e se tornava necessário investir em grandes empresas capital-intensivas.

No início dos anos 1980, Guillermo deixou de lado o tema do autoritarismo e se voltou para as transições democráticas.

Liderou um grande projeto de pesquisa sobre essas transições, mas, em vez de explicar as transições como consequência da luta popular e da adesão da burguesia industrial a essa luta quando perdeu o medo do comunismo, defendeu a ideia de que a transição democrática decorreu da vitória dos militares "soft liners" sobre os "linha dura".

Depois da redemocratização da Argentina, do Brasil e do Chile, voltou-se para o problema da qualidade da democracia. Não bastava uma democracia mínima, a liberdade de palavra e de associação e o sufrágio universal; era preciso que o Estado democrático se tornasse cada vez mais democrático, que deixasse de ser apenas uma "democracia delegativa" nas quais todo o poder se concentra no chefe do governo.

Para isso, não bastava que se avançasse na defesa dos direitos sociais e se aumentasse a responsabilização dos políticos; era necessário também avançar na proteção dos direitos civis -do direito à vida, à liberdade, à propriedade e ao respeito- que são assegurados aos ricos, não aos pobres.

Guillermo O"Donnell foi um grande intelectual do seu tempo. Um tempo que ele viveu com paixão e indignação. Durante um certo período de sua vida viveu em São Paulo e foi pesquisador do Cebrap; assim, quase se tornou um brasileiro, mas a Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, nos venceu. Entretanto, antes de mais nada ele era um argentino, e voltou para Buenos Aires há alguns anos.

Em seu país ele poderia ter sido um grande político -não lhe faltaram convites e oportunidades na sua juventude e maturidade- mas preferiu se dedicar às ideias, porque acreditava que elas são poderosas e que movem o mundo. As suas certamente moveram.


* Publicado na Folha de S.Paulo, em 04/12/2011.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 76, professor emérito da FGV-SP. Foi ministro da Ciência e Tecnologia e da Administração Federal e Reforma do Estado (governo FHC), além de ministro da Fazenda (governo Sarney).

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Pensar a USP

Vladimir Safatle


As reações ao que ocorreu na USP demonstram como, muitas vezes, é difícil ter uma discussão honesta e sem ressentimentos a respeito do destino de nossa maior universidade. Se quisermos pensar o que está acontecendo, teremos que abandonar certas explicações simplesmente falsas.

Primeiro, que o epicentro da revolta dos estudantes seja a FFLCH, isto não se explica pelo fato de a referida faculdade estar pretensamente "em decadência". Os que escreveram isso são os mesmos que gostam de avaliar universidades por rankings internacionais.

Mas, vejam que engraçado, segundo a QS World University Ranking, os Departamentos de Filosofia e de Sociologia da USP estão entre os cem melhores do mundo, isso enquanto a própria universidade ocupa o 169º lugar. Ou seja, se a USP fosse como dois dos principais departamentos da FFLCH, ela seria muito mais bem avaliada.

Segundo, não foram alunos "ricos, mimados e sem limites" que provocaram os atos. Entre as faculdades da USP, a FFLCH tem o maior percentual de alunos vindos de escola pública e de classes desfavorecidas. Isso explica muita coisa.

Para alunos que vieram de Higienópolis, a PM pode até significar segurança, mas aqueles que vieram da base da pirâmide social têm uma visão menos edulcorada.

Eles conhecem bem a violência policial de uma instituição corroída por milícias e moralmente deteriorada por ser a única polícia na América Latina que tortura mais do que na época da ditadura militar.

Não há nada estranho no fato de eles rirem daqueles que gritam que a PM é o esteio do Estado de Direito. Não é isso o que eles percebem nos bairros periféricos de onde vieram.

Terceiro, a revolta dos estudantes nada tem a ver com o desejo de fumar maconha livremente no campus. A descriminalização da maconha nunca foi uma pauta do movimento estudantil.

Infelizmente, o incidente envolvendo três estudantes com um cigarro de maconha foi a faísca que expôs um profundo sentimento de não serem ouvidos pela reitoria em questões fundamentais. Era o que estava realmente em jogo. Até porque, sejamos claros, mesmo se a maconha fosse descriminalizada, ela não deveria ser tolerada em ambientes universitários, assim como não se tolera a venda de bebidas alcoólicas em vários campi.

Quando ocorreu a morte de um aluno da FEA, vários grupos de estudantes insistiram que a vinda da PM seria uma máscara para encobrir problemas sérios na segurança do campus, como a iluminação deficiente, a parca quantidade de ônibus noturnos, a concentração das moradias estudantis em só uma área e a falta de investimentos na guarda universitária. Isso talvez explique porque 57% dos alunos dizem que a presença da PM não modificou em nada a sensação de segurança.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 15/11/2011.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Assim não, pessoal

Antonio Prata

Em 1998, na primeira semana do meu curso de ciências sociais, na PUC, fizemos um abaixo-assinado. Estávamos em fevereiro, a classe era abafada e pedimos para que a reitoria instalasse um ventilador. Redigimos um texto à mão, coisa de três linhas, e, durante o intervalo, uma colega foi até o Centro Acadêmico digitar e imprimir nossa justa e simples reivindicação. Mal chegou ao CA, um aluno ofereceu-se para ajudar.
Minha amiga voltou uma hora depois, com os olhos arregalados. As três linhas tinham virado um manifesto de duas páginas, que falava do "sucateamento" da educação no Brasil, dos salários dos professores nas escolas públicas, citava Maio de 68 e terminava exigindo: "a) a divisão da turma em dois; b) a mudança para uma classe maior; ou c) ventiladores".
Sem entrar no mérito do longo manifesto, perguntei que história era aquela de dividir a turma em dois -o que implicaria dobrar o número de professores e custaria mais de R$ 100 mil-, se nós só pedíamos um ventilador? Ela disse que tentara explicar tal raciocínio ao membro do CA, mas ouviu em resposta que era "preciso dar uma alternativa à reitoria, para começarem a discutir". Alguém sugeriu, então, que pedíssemos: a) um ventilador ou b) um frigobar com Boêmias e Chicabons. Se a reitoria preferisse a segunda opção, não nos oporíamos.
A história seria cômica, não fosse por um detalhe: a educação pública no Brasil era -e é- uma lástima, os salários dos professores eram -e são- uma vergonha. Ao cobrar do reitor de uma universidade privada melhorias no ensino público, contudo -e no abaixo-assinado por um ventilador-, o guerrilheiro do CA não fazia nada pela educação no país, só tornava ridículo, aos olhos dos demais alunos, todos os que levantassem as bandeiras legítimas de um ensino de qualidade -além, é claro, de afastar definitivamente a possibilidade de conseguirmos o ventilador.
A invasão da reitoria da USP me fez lembrar daquele episódio. Que a polícia prenda jovens por consumo de maconha é lamentável. Que jogue gás lacrimogêneo contra os estudantes que protestam contra a prisão é uma violência desmedida. Mas que, em reação a isso, alunos invadam o prédio da reitoria e peçam a proibição da PM no campus é um raciocínio tão equivocado quanto sugerir a divisão da turma em dois, por causa do calor. Ou luta-se para que ninguém seja preso por porte de maconha e que ninguém tome porrada da PM -e acampa-se em frente do Palácio dos Bandeirantes, não na reitoria- ou o que se está exigindo é um privilégio. Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos no campus da universidade, não é um pensamento libertário, é um vício classista: a velha ideia de que, neste país, todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.
Com esta invasão, os guerrilheiros da reitoria não fizeram mal apenas à discussão sobre drogas e violência policial: ajudaram a tornar ridículos, aos olhos de toda a população, os milhares de outros jovens que, no Brasil e fora dele, lutaram e lutam por causas urgentes e fundamentais; não para serem tratados como cafés com leite.

antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata
Blog 'Crônicas e Outras Milongas' antonioprata.folha.blog.uol.com.br
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 09/11/2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Polícia e autonomia na USP

Fernando de Barros e Silva

"Não é um caso como esse que vai nos dar um argumento bom para colocar a PM dentro da USP." Ouço a frase um pouco estupefato. Quem fala à videorreportagem da Folha.com é uma respeitável professora da Faculdade de Economia e Administração da USP. Ela se refere ao assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva, quarta à noite, no estacionamento da FEA, morto com um tiro na cabeça.
Não é mesmo o caso de espetacularizar a tragédia. Nem de minimizá-la. O que mais seria necessário para escancarar que a USP se tornou um lugar inseguro? Ou antes: existe algum bom argumento para que a PM não esteja dentro da USP? Não consigo pensar em nenhum.
Até quando a universidade ficará refém da mentalidade que herdou do regime militar, quando, de fato, a polícia entrava no campus para reprimir e prender arbitrariamente estudantes e professores?
Passaram-se 40 anos. Quem, de fato, acredita que a presença da PM possa significar ameaça à liberdade de manifestação na USP? Ela vai, isso sim, como parece óbvio, aumentar a proteção das pessoas que lá estudam e trabalham, ainda que não seja a única medida a ser tomada, como também vem sendo debatido.
Estamos falando de uma área correspondente a 440 campos de futebol, com vários espaços ermos e muitos pontos de acesso, por onde circulam diariamente até 100 mil pessoas, sendo 80 mil entre docentes, funcionários e alunos.
Ninguém aqui defende a "militarização" do campus. Isso é tolice. O problema talvez seja o inverso. A ideia de que a USP seja um "território livre", uma comunidade imune às regras do mundo externo, é uma distorção abusiva da autonomia universitária conquistada nos anos 80, reforçada ainda pela visão idílica e idealizada do campus, resquício de um pensamento de esquerda afinal muito pouco republicano.
Dizer, hoje, "aqui a polícia não entra" não passa de um cacoete autoritário de quem, já sendo autônomo, gostaria de ser soberano.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 21/05/2011.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Para que os rankings?

Rogério Meneghini

Os rankings de universidades causam surpresas pela diversidade de resultados. Recentemente destacou-se essa matéria na imprensa.
Como dar-lhes crédito quando, por exemplo, a USP salta da 19ª posição no ranking Scimago para a 471ª no Leiden, entre os dez rankings existentes? As discrepâncias não ocorrem porque a cienciometria "não é uma ciência exata", mas porque os critérios utilizados pelos rankings são diversificados.
A primeira razão disso é que eles têm caráter mercadológico e consideram a diversidade de interesses dos consulentes. Daí as distinções de enfoque. As melhores universidades estão em busca de talentos jovens, não só por mais dinheiro das anuidades, mas também por mais sucesso em ciência e destaque de seus egressos na sociedade.
A autopromoção é um caminho (a Universidade Harvard tem um escritório em São Paulo), mas uma avaliação externa e comparativa tem maior alcance promocional.
Decorrem daí ênfases distintas em diferentes atividades acadêmicas avaliadas pelos diferentes rankings. Pessoas e instituições vão buscar os rankings que lhes proporcionem informes de interesse, cada um individualmente avaliado.
A diversidade dos resultados dos rankings causa má impressão nos incautos. Entre as várias críticas, uma é a da utilização de cienciometria na consideração de citações como sinônimo de qualidade e de relevância dos artigos.
Porém, em muitas pesquisas realizadas, a correlação entre percepção pessoal dos pares e citações é significativamente alta. Outra crítica diz respeito à ausência de avaliação de publicação de livros.
A esse respeito, é importante considerar que as grandes bases de dados estão passando a cobrir livros, um documento de comunicação de interesse forte nas áreas de humanas e sociologia. Para aqueles visceralmente contra o uso de cienciometria, o Times Higher Education publicou recentemente um ranking de universidades baseado apenas na opinião subjetiva de cerca de 13 mil pares.
As universidades brasileiras novamente se viram mal. Certamente um fator que muito pesa é o baixo grau de cosmopolitismo destas, seja na participação de estrangeiros nos corpos docentes e discentes, seja no grau de colaboração científica internacional em projetos (40º lugar entre as nações).
Certamente, as universidades não devem ficar à mercê dos rankings em suas decisões de políticas acadêmicas. Elas têm que proceder com as suas próprias avaliações, buscando participação de pares estrangeiros, como fez a USP na avaliação de departamentos a partir de 1992. As instituições governamentais podem aí também desempenhar um papel importante, quando fomentam em nível institucional (Capes, por exemplo).
Mas ser contra os rankings é estéril e enviesado. Eles existirão, provavelmente proliferarão e serão aperfeiçoados na medida em que as universidades busquem arregimentar os melhores professores, pesquisadores, alunos e parcerias.
As universidades brasileiras estão ainda despreparadas para serem proativas nesse contexto.


ROGÉRIO MENEGHINI, professor titular aposentado do Instituto de Química da USP, é coordenador científico do programa SciELO de revistas científicas brasileiras e membro da Academia Brasileira de Ciências.
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 06/05/2011.